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Cadê o lobby dos políticos nikkeis para ajudar?

- 2 de janeiro de 2026
O Visto Yonsei impõe regras rígidas e impede o reagrupamento familiar. Entenda como as barreiras burocráticas afetam os brasileiros no Japão.

O Visto Yonsei impõe regras rígidas e impede o reagrupamento familiar. Entenda como as barreiras burocráticas afetam os brasileiros no Japão.

Por décadas, a comunidade nipo-brasileira foi exaltada como a “maior população de origem japonesa fora do Japão”. Em anos eleitorais, esse discurso ganha fôlego: políticos nikkeis desfilam em matsuris, discursam sobre a preservação dos valores dos pioneiros e reforçam os laços de “irmandade” entre Brasília e Tóquio. No entanto, quando as luzes dos festivais se apagam, o que resta para a quarta geração — os bisnetos ou yonseis — é uma realidade de exclusão e exigências desproporcionais.

Atualmente, o acesso desses jovens ao mercado de trabalho japonês é cercado por uma malha burocrática que parece desenhada para desestimular, em vez de acolher. Enquanto filhos e netos de japoneses possuem o status de “Long-Term Resident” com relativa liberdade, o bisneto é tratado sob um regime de exceção rigoroso. As exigências de proficiência linguística (JLPT N5 para os mais jovens e o exigente N3 para quem passou dos 30) funcionam como um filtro implacável. Mas o golpe mais duro é a proibição do reagrupamento familiar: ao contrário de seus pais e avós, o yonsei não pode levar cônjuge ou filhos. Ele é convidado a trabalhar, mas proibido de criar raízes.

A Atuação Política: Entre a Inércia e a Soberania

A pergunta que ecoa na comunidade é legítima: onde estão os nossos representantes? Existe, sim, uma movimentação nos bastidores do Grupo Parlamentar Brasil-Japão e em visitas oficiais ao Diário de Tóquio. O argumento central desses parlamentares costuma ser a reciprocidade diplomática e a necessidade de mão de obra qualificada no Japão. Contudo, o resultado prático dessas gestões é, na melhor das hipóteses, incremental.

O grande obstáculo é que a política migratória é um pilar da soberania japonesa, frequentemente regida por uma visão conservadora que vê na quarta geração um distanciamento cultural “perigoso” para a coesão social da ilha. Para muitos políticos nikkeis, enfrentar essa barreira exige um capital político que muitas vezes é desviado para pautas comerciais mais lucrativas ou para a manutenção de bases eleitorais locais no Brasil.

O Hiato Pós-Eleitoral e o Prestígio em Cheque

O sentimento de abandono mencionado por muitos não é infundado. Há um hiato evidente entre a presença física dos políticos em eventos culturais e a entrega de soluções jurídicas concretas. O “prestígio” do trabalhador nipo-brasileiro no Japão está sofrendo uma erosão. Sem o direito de levar a família, o yonsei deixa de ser um imigrante com projeto de vida para se tornar uma mão de obra temporária e isolada.

Para que os bisnetos recuperem o status de seus antecessores, a mobilização precisa superar o simbolismo das fotos em templos e associações. É necessário que o governo brasileiro coloque a questão dos yonseis como prioridade na agenda do Itamaraty, tratando o visto não como uma concessão benevolente do Japão, mas como um direito de herança de uma comunidade que serviu de ponte entre as duas nações por mais de um século.

Se não houver uma pressão política coordenada e contínua, o risco é que a quarta geração seja a última a manter qualquer vínculo produtivo com a terra de seus bisavós, transformando o “orgulho nikkei” em apenas uma lembrança de museu, sem espaço no futuro do mercado de trabalho japonês.

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Autor

**Portal Mundo-Nipo**
Sucursal Japão

Jonathan Miyata é Correspondente Internacional do Canal Mundo-Nipo em Tóquio. Graduado em Jornalismo pela Universidade de São Paulo e com Pós-Graduação em Estudos Asiáticos pela Universidade de Tóquio (Todai). Atua na cobertura de política, tecnologia e cultura japonesa há mais de 8 anos, com passagens pelo grupo Abril antes de integrar o Mundo-Nipo.

Reportagem: Esta é uma descrição de eventos e ocorrências cujo conteúdo é rigorosamente fundamentado em dados e fatos. As informações são verificadas por meio da observação direta do repórter ou mediante consulta a fontes jornalísticas consideradas idôneas e confiáveis.

Fonte: Portal G1, Jornal Nippak, Site da Embaixada do Japão, Agência Brasil, Alternativa Online

Edição e publicação responsável: Mundo-Nipo Notícias

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