Entenda por que o Japão está trocando brasileiros por asiáticos e como a crise de mão de obra está mudando as regras nas fábricas japonesas.
O Japão enfrenta uma encruzilhada demográfica sem precedentes. O país depende vitalmente de imigrantes para manter suas fábricas rodando. No entanto, o perfil dessa força de trabalho está sofrendo uma mudança drástica. O tradicional fluxo de descendentes de japoneses está perdendo espaço no mercado. Jovens vindos do Sudeste Asiático agora ocupam essas vagas estratégicas.
Mudanças no chão de fábrica da indústria japonesa
Relatos de empreiteiras na província de Aichi revelam uma tendência desconcertante. O número de fábricas que vetam a contratação de brasileiros tem crescido. Muitos departamentos de RH agora solicitam especificamente trabalhadores asiáticos. Essa preferência não busca apenas a redução de custos operacionais. Na verdade, o valor pago por hora permanece o mesmo em muitos setores.
O empregador japonês atual valoriza muito a disciplina e o vigor. Os jovens asiáticos demonstram maior adaptabilidade às rigorosas normas de produção. Em contrapartida, a comunidade brasileira envelheceu após décadas no país. Como resultado, esse grupo tornou-se menos flexível nas linhas de montagem.
O sucesso dos estagiários técnicos em Choshi
A fábrica de conservas Tawara Canning Co. ilustra bem essa nova realidade. A empresa utiliza estagiários do Vietnã para operar máquinas pesadas. Esses trabalhadores realizam cortes de precisão com enorme dedicação. O presidente da empresa considera esse esforço indispensável para a sobrevivência local.
Além disso, os empresários estão investindo pesado na retenção desses talentos. Eles oferecem moradias dignas e promovem a integração com a comunidade. Essa mudança de mentalidade visa garantir a continuidade das indústrias regionais. Sem esse suporte estrangeiro, muitos setores simplesmente deixariam de existir no Japão.
A competição global por talentos estrangeiros
O Japão enfrenta agora uma forte ameaça externa em sua economia. A competição global por trabalhadores qualificados aumentou consideravelmente nos últimos anos. Historicamente, o país era o destino óbvio devido aos altos salários. No entanto, o iene enfraquecido diminuiu o valor real das remessas.
Enquanto isso, economias como Vietnã e Tailândia vivem um crescimento acelerado. Esses países oferecem novas oportunidades locais para seus cidadãos. Por exemplo, a Austrália e a Coreia do Sul tornaram-se rivais diretos. Esses destinos oferecem processos migratórios mais simples e salários superiores.
O fim da era da mão de obra temporária
O governo japonês planeja substituir o sistema de estágio técnico em 2027. Essa decisão sinaliza que o estrangeiro não é mais um recurso temporário. O foco agora recai sobre pessoas comprometidas com o rigor japonês. A concorrência nas fábricas de Aichi deixou de ser apenas por vagas.
Atualmente, a disputa é pela preferência de um sistema produtivo exigente. O Japão aprendeu a olhar para o resto da Ásia com otimismo. O futuro da indústria depende de respeitar as trajetórias de vida desses trabalhadores. Afinal, eles possuem planos e sonhos que vão além do trabalho manual.


**Portal Mundo-Nipo**
Sucursal Japão
Jonathan Miyata é Correspondente Internacional do Canal Mundo-Nipo em Tóquio. Graduado em Jornalismo pela Universidade de São Paulo e com Pós-Graduação em Estudos Asiáticos pela Universidade de Tóquio (Todai). Atua na cobertura de política, tecnologia e cultura japonesa há mais de 8 anos, com passagens pelo grupo Abril antes de integrar o Mundo-Nipo.
Reportagem: Esta é uma descrição de eventos e ocorrências cujo conteúdo é rigorosamente fundamentado em dados e fatos. As informações são verificadas por meio da observação direta do repórter ou mediante consulta a fontes jornalísticas consideradas idôneas e confiáveis.
