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Kowloon tinha 50 mil habitantes em 2,7 hectares de área

- 8 de dezembro de 2023

A demolição da cidade murada de Kowloon há 30 anos marcou o fim de um modo de vida único em Hong Kong.

Enquanto o restante de Hong Kong era uma colônia britânica, os 27 mil m² (equivalente a quatro campos de futebol) da antiga cidade murada permaneciam nominalmente sob o controle da China continental.

Essa idiossincrasia transformou esse pequeno pedaço de terra em uma área sem lei.

Já se passaram 26 anos desde a transferência da soberania de Hong Kong do Reino Unido para a China e 30 anos desde a demolição de Kowloon, mas as pessoas que viveram nessa cidade abarrotada ainda recordam o sentimento especial de comunidade.

A história da cidade murada remonta à dinastia Song (960-1279), quando foi estabelecido um posto militar para gerenciar o comércio de sal na região.

Séculos depois, em 1842, a ilha de Hong Kong foi cedida pela dinastia Qing (1644-1912) aos britânicos no Tratado de Nankin, mas a cidade murada de Kowloon permaneceu sob controle chinês, abrigando cerca de 700 pessoas na época.

A China acreditava que deveria ter presença na então colônia britânica e considerou usar Kowloon como um ponto de controle para supervisionar a região, mas ao longo do tempo abandonou essa ideia.

Assim, com a política britânica de não intervenção, a cidade ficou em um vazio legal, sem nenhuma autoridade para responsabilizar-se por ela.

Com o início do século 20 e eclosão da 2a. Guerra Mundial, e Kowloon tornou-se lar de imigrantes e grupos ilegais que buscavam escapar da ocupação japonesa de Hong Kong, que teve início em 25 de dezembro de 1941.

Após a rendição do Japão, a cidade, já sem muralhas, continuou a crescer, mas, incapaz de expandir-se horizontalmente, ampliou-se verticalmente.

De 17 mil habitantes durante a 2ª Guerra Mundial, chegou a 50 mil no final dos anos 80, tornando-se a cidade (dentro de outra cidade) com a maior densidade populacional do mundo.

Edifícios de 14 andares empilhados uns sobre os outros, como um organismo vivo.

Salões de ópio, prostíbulos e cassinos operados por gangues dominavam o local. A polícia, os inspetores de saúde e os cobradores de impostos temiam entrar.

Kowloon estava repleta de criminalidade, prostituição e consumo de drogas, mas havia uma grande proximidade entre aqueles que chamavam aquele lugar de lar.

Juntos, os moradores resistiram por décadas aos esforços do governo de Hong Kong para expulsá-los.

Comerciantes chineses, curandeiros e dentistas autodidatas, juntamente com criminosos, lutavam para manter a cidade viva.

“Também havia muitos médicos e dentistas, muitíssimos dentistas. Todos esses profissionais atuavam ilegalmente, pois não podiam exercer em Hong Kong devido à falta de conhecimento do inglês e à impossibilidade de realizar a prova de avaliação”, explica Suenn sobre uma prática que levava moradores de Hong Kong a procurarem tratamento na cidade murada.

“Quando cresci, minha família tinha uma empregada lá, e um dia ela me disse que estava com dor de dente e que iria à cidade murada para arrancá-lo. Quando ela voltou para casa e perguntei se tinham extraído o dente, ela respondeu: ‘Bem, na verdade, eles tiraram o dente errado’.

“Erraram o dente? O que aconteceu?”, perguntei, e ela respondeu: “Não se preocupe. Eles erraram o dente e depois perceberam que deveriam extrair o outro, então tiraram o outro também, mas só me cobraram por um dente”.

“Ela considerou um ótimo negócio”, conta Suenn.

Embora os muros físicos da cidade murada tivessem sido derrubados após a 2ª Guerra Mundial, ainda era possível identificar claramente onde ficava a cidade murada, pois dentro de seu perímetro não havia normas de construção. A cidade cresceu até preencher todo o espaço disponível.

“Dentro da cidade murada de Kowloon, todos os prédios estavam amontoados uns sobre os outros. Quase não havia espaço entre um prédio e outro”, lembra Albert Ng. No auge de sua população, entre 35 mil e 50 mil pessoas moravam em apenas 2,7 hectares de terreno.

Demolição da cidade

Em 1987, antecipando a devolução de Hong Kong pelos britânicos à China em 1997, os governos chinês e britânico decidiram que o melhor era demolir a cidade murada.

Atualmente, Kowloon abriga um parque público memorial com um lago.

A demolição finalmente começou em março de 1993. A área agora é um parque público.

Portal Mundo-Nipo

Sucursal Japão – Tóquio

Jonathan Miyata

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