O mercado de trabalho no Japão mudou. Saiba como a nova imigração asiática e a falta de qualificação técnica desafiam a estabilidade dos nikkeis.
Por décadas, o dekassegui brasileiro e latino-americano ocupou um posto privilegiado no mercado de trabalho japonês. Beneficiados por laços consanguíneos e vistos facilitados, os nikkeis eram a mão de obra de confiança nas “chãos de fábrica” do arquipélago. No entanto, o cenário mudou.
Hoje, o trabalhador nikkei enfrenta uma encruzilhada competitiva. A pergunta que ecoa nas comunidades de Hamamatsu a Oizumi é: o espaço está sendo tomado por outros asiáticos ou fomos nós que paramos no tempo?
A “Invasão” Planejada: O Peso das Novas Leis de Imigração
Não se pode ignorar o impacto legislativo. O governo japonês, pressionado pela escassez de mão de obra e pelo envelhecimento populacional, abriu as portas através de duas frentes principais:
- O Programa de Estagiários Técnicos (TITP): Embora alvo de críticas, trouxe milhões de jovens vindos do Vietnã, Indonésia e Filipinas, dispostos a aceitar condições e salários que muitos nikkeis já não aceitam.
- O Visto de Trabalhador Qualificado Especificado (Tokutei Ginou): Criado recentemente, este visto foca em habilidades técnicas e proficiência na língua japonesa, nivelando o jogo.
Para as empreiteiras e fábricas, o “sangue japonês” dos nikkeis já não é o diferencial único. O que conta agora é a produtividade, o custo-benefício e a fluidez no idioma — pontos onde os novos imigrantes asiáticos, muitas vezes subsidiados por programas governamentais de seus países de origem, estão se destacando.
O Espelho da Realidade: A Estagnação Técnica
Por outro lado, especialistas e membros da própria comunidade apontam para uma “zona de conforto” perigosa. Muitos nikkeis chegaram ao Japão com o plano de ficar dois anos, que se tornaram vinte, sem que houvesse um investimento real em:
- Domínio do Idioma: O “nihongo de fábrica” é insuficiente para cargos de gestão ou para migrar para o setor de serviços e tecnologia.
- Qualificação Profissional: A dependência excessiva das empreiteiras (haken) impediu que muitos buscassem cursos técnicos ou certificações reconhecidas no Japão.
- Adaptação Cultural: Enquanto novos imigrantes chegam focados em aprender as regras do jogo atual, parte da comunidade nikkei ainda se vê presa a uma identidade híbrida que nem sempre se traduz em eficiência no ambiente corporativo japonês moderno.
Comparativo: Nikkeis vs. Novos Imigrantes Asiáticos
| Critério | Nikkeis (Brasileiros/Peruanos) | Novos Imigrantes (Vietnã/Indonésia) |
| Vínculo Jurídico | Visto de residente (liberdade total) | Visto vinculado ao contrato/habilidade |
| Idioma | Nível básico/intermediário (maioria) | Estudo intensivo prévio obrigatório |
| Expectativa Salarial | Busca por maior valor/hora | Aceitação do piso para entrada |
| Foco na Carreira | Estabilidade em fábricas | Trampolim para especialização |
O Veredito é Seu
A perda de competitividade parece ser uma tempestade perfeita: a abertura do mercado para vizinhos asiáticos mais jovens e disciplinados encontrou uma comunidade nikkei que, em grande parte, não se preparou para a transição do trabalho braçal para o trabalho qualificado.
O Japão de 2025 não é o mesmo de 1990. A ancestralidade ainda abre portas, mas é a competência técnica que garante a permanência.
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**Portal Mundo-Nipo**
Sucursal Japão
Jonathan Miyata é Correspondente Internacional do Canal Mundo-Nipo em Tóquio. Graduado em Jornalismo pela Universidade de São Paulo e com Pós-Graduação em Estudos Asiáticos pela Universidade de Tóquio (Todai). Atua na cobertura de política, tecnologia e cultura japonesa há mais de 8 anos, com passagens pelo grupo Abril antes de integrar o Mundo-Nipo.
Reportagem: Esta é uma descrição de eventos e ocorrências cujo conteúdo é rigorosamente fundamentado em dados e fatos. As informações são verificadas por meio da observação direta do repórter ou mediante consulta a fontes jornalísticas consideradas idôneas e confiáveis.
