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Médicos desempenham o papel de Deus

- 7 de maio de 2020

O sistema hospitalar brasileiro entra em pane mesmo antes da pandemia do Corona vírus atingir o seu platô. Hoje já estão registrados 8536 mortos no Brasil, mas o cenário irá piorar muito mais antes de chegar ao seu ápice.
Com altas taxas de ocupação dos leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) para Covid-19, São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará, Pernambuco e Amazonas podem rapidamente chegar ao limite máximo da capacidade de atendimento.
Já há ocorrências em várias capitais brasileiras em que a falta de respiradores faz com que médicos precisem desempenhar o papel que apenas Deus deveria ter, escolher quem terá a oportunidade para viver e quem deverá morrer. Os mais vulneráveis no leito tem o seu equipamento de respiração retirado para serem entregues aos mais propensos a sobreviver, isto faz parte do protocolo hospitalar.
Este tipo de procedimento parece um absurdo, mas é mais comum do que se parece nos centros de atendimentos públicos.
Lembro de um fato ocorrido há três anos em que minha mãe precisou ser internada para o tratamento de uma doença. O convênio médico a transferiu durante a madrugada para um hospital na região do ABC para que fosse feita a tomografia. Devido a sua fragilidade física solicitei ao médico que a internasse e que fosse realizado o exame na parte da manhã. Durante a consulta notei que o médico estava inquieto, andava na sua sala de um lado para o outro, sendo que o espaço era inferior a um metro e meio. Quando se sentava não parava de agitar um dos pés ou mexer as mãos. Passei a observá-lo com mais atenção e percebi que os olhos estavam vermelhos, cheguei à conclusão que poderia estar drogado.
Após este médico conseguir a internação para a minha mãe perguntou se eu precisava de mais algo. Temendo que ele pudesse medicá-la de forma incorreta fui muito claro: “não, minha mãe precisava apenas da internação, muito obrigado!”.
Fiquei indignado com aquela situação, como um médico pode estar naquele estado atendendo pacientes? Pensei seriamente em reclamar ao convênio médico ou a algum órgão competente do Governo.
Depois que a minha mãe foi acomodada no apartamento do hospital fui para o lado de fora do hospital. O médico que nos atendeu apareceu no meu lado e acendeu um cigarro. Começou a me contar que era contratado de hospitais públicos e que precisava trabalhar dois turnos para complementar a sua renda. Mas que estava em fase de teste no hospital particular do ABC com o intuito de abandonar os trabalhos em hospitais públicos.
O seu drama foi explicitado a partir deste momento, disse que trabalha em hospitais públicos sem a menor estrutura, que constata diariamente a falta de equipamentos e materiais hospitalares. Mas o que mais o deixava triste era a falta do tubo de oxigênio. A direção do hospital estava ciente da falta de oxigênio, mas que não havia verba para adquiri-la. Gesticulando de forma inquieta, com o rosto estampando o desespero contou a mim que era frequente a necessidade de escolher a quem conceder o uso do oxigênio. O protocolo é igual a atualmente aplicado em hospitais com pacientes de Covid-19, retirar o oxigênio dos mais frágeis fisicamente para entregá-lo ao mais propenso à cura.
Para Deus não seria uma decisão difícil, mas para nós, pobres mortais, é um misto de sentimento de culpa e missão cumprida.
Quando percebi o quanto sofria aquele homem de coração grande, tive a certeza de que devia perdoá-lo por qualquer coisa que havia me incomodado.
Vendo os noticiários brasileiros deparo com comentários de médicos que precisam decidir quem irá viver, quem irá morrer, igual ao médico que atendeu a minha mãe.
Lamento por nosso país, em pleno século 21, estar vivendo uma realidade tão triste, algo que não precisaríamos estar vivendo.

Portal Mundo-Nipo
Brasil São Paulo
Abrahin Chedid